"Desde que começamos a dominar a Língua que aprendemos que há coisas que não se dizem. Esta aprendizagem sobre o que se diz e o que se cala começa cedo em relação a meia-dúzia de palavrões que se explica às criancinhas que não se dizem por serem palavras feias. Continua, depois, de formas cada vez mais subtis, com atitudes diversas que vão no sentido de que os miúdos percebam que as coisas que se dizem (que eles dizem) têm consequências. Lentamente, vão dando conta que, mesmo que existam palavras para exprimir o que se pensa, mesmo que elas correspondam ao que sentimos ou ao que julgamos ser verdade, mesmo que venha a calhar ou pareça inteligente......há sempre uma decisão a tomar: a de falar ou ficar calado, de acordo com o preço que se está disposto a pagar pelas consequências do que se diz...
Aprende-se que, em inúmeras situações, o que se diz tem, ou pode ter, uma importância que escapa ao controlo e à intencionalidade atribuída pelo próprio. Esta consciência de que a prática discursiva é, também ela, uma tomada de decisão individual, tropeça, habitualmente, com outras aprendizagens que se fazem em simultâneo.
De facto, paralelamente ao domínio da Língua acede-se ao conhecimento de que existem valores, e que uns são mais aceitáveis do que outros, sendo que a demonstração desses valores através do que se faz, mas também do que se diz, entra igualmente no pacote complicado da avaliação que os outros fazem de quem somos e do como somos. Por essa via, o que dizemos e o que calamos diz de nós mais do que se pretende.
Como sermos sinceros sem magoar ou desencadear a agressividade ou a zanga do nosso interlocutor? Como não sermos cobardes se calarmos opiniões que nos podem ser prejudiciais? Como não sermos interesseiros, dizendo o que é esperado que seja dito? Como não dizer a verdade sem mentir?
Ninguém nos disse, mas vamos aprendendo que neste particular, como aliás em tantos outros, vamos andando por tentativa e erro. Temos a vida inteira para treinar e melhorar e, nos casos mais felizes, consegue-se estar competente e maduro antes da senilidade. É uma pena que não haja segunda oportunidade."

